Agricultura em diferentes realidades: o que uma jornada pela América do Sul revela sobre o agro
Uma jornada pela América do Sul mostrou como a agricultura se adapta a diferentes ambientes e reforçou a importância da gestão e da tecnologia no campo.

Por Jonas Rotilli, fundador da upCampo.
Essas foram nossas “férias”, minhas e da minha esposa, Nayara Aguero. Na prática, um projeto que vínhamos adiando há alguns anos — e que finalmente conseguimos realizar.
Viajar de carro muda tudo. A cada quilômetro, uma paisagem diferente, uma cultura diferente, uma forma diferente de produzir alimentos. E como trabalho diariamente com agricultura, aproveitei a oportunidade para observar com atenção como ela se manifesta ao longo desse caminho.
Do Mato Grosso ao Acre
Saindo de Cuiabá em direção a Rondônia, via Cáceres, o cenário é majoritariamente de pecuária. As lavouras de grãos começam a aparecer mais ao norte, próximas à divisa. Já em Rondônia, especialmente na região de Vilhena, a agricultura ganha força, com belas áreas cultivadas.
Rondônia, inclusive, é um estado muito bonito e uma nova fronteira agrícola em franca expansão. Até Porto Velho, há um mosaico interessante entre pecuária e lavoura. Depois, as lavouras diminuem e a pecuária volta a predominar.
No Acre, o padrão segue parecido: muita pecuária. Mas após Rio Branco veio uma surpresa positiva — lavouras de soja bem estruturadas, fazendas com silos e uma organização que eu não esperava encontrar ali.
E mesmo estando a milhares de quilômetros de distância, seguimos acompanhando a rotina das fazendas. Com uma Starlink no carro e a upCampo, provamos que é possível cuidar das coisas remotamente: acompanhar atividades, conferir informações, trocar mensagens e não perder o pulso da operação. Não substitui estar no campo, claro, mas traz tranquilidade e continuidade.
Peru: a agricultura da altitude
Entrando no Peru, a paisagem muda completamente. Um pouco de pecuária no início, mas logo a Amazônia peruana domina — floresta, madeira. Cerca de 400 km depois da divisa com o Brasil, começa a subida da Cordilheira dos Andes. E aí a realidade muda radicalmente.
Montanhas, altitude extrema, estradas desafiadoras. Chegamos a quase 4.725 metros de altitude. Nessa região, a agricultura é basicamente de batata, e a pecuária é de alpacas e lhamas, tudo em pequena escala, extremamente adaptado ao ambiente.
Descendo até Cusco, a cerca de 3.399 metros, chegamos ao famoso Vale Sagrado. Montanhas, um rio cortando o vale e a vida acontecendo ali há séculos. É impossível não se impressionar com a sabedoria inca.
Visitamos o sítio arqueológico de Moray, que pode ser visto como uma “Embrapa inca”: terraços circulares usados para experimentar culturas em diferentes altitudes e microclimas. Nos pontos mais altos, batata. Nos mais baixos, milho. Muito milho.
O milho no Peru é algo impressionante. Está presente no café da manhã, almoço e jantar — em diversas cores, variedades e preparos. Trouxemos de lá um conjunto de sementes que mostra bem essa diversidade. É um patrimônio genético riquíssimo.
Chile, Bolívia e Argentina
Descendo do Peru para o Chile, a paisagem vai ficando cada vez mais árida. Do litoral até o Atacama, o deserto domina. A agricultura aparece apenas em vales isolados, sempre próximos a rios, em pequena escala — e, claro, sempre com milho.
No Deserto do Atacama, é deserto de verdade. Predominam criações de alpacas e lhamas, além da forte presença da mineração.
Na Bolívia, fomos conhecer o Salar de Uyuni, na divisa com Chile e Argentina, onde novamente encontramos altitude elevada, batata, alpacas e mineração.
Ao entrar na Argentina, depois de atravessar a Cordilheira ainda na Bolívia, começamos a descer. A pecuária volta a aparecer, já mais parecida com a brasileira.
Na província de Jujuy, ainda há montanhas e vales que lembram o Peru, com agricultura familiar ao redor. Já em Salta, conhecemos Cafayate — uma região lindíssima, berço de vinhos argentinos, repleta de vinhedos.
Saindo das montanhas, o terreno se abre. E aí surgem lavouras que lembram muito o Brasil: girassol, soja e até algodão, já na região do Chaco Argentino.
Paraguai e a volta para casa
No Paraguai, de Assunção até Ponta Porã, o destaque está no trecho central: áreas agrícolas muito bem conduzidas, lavouras lindas.
De volta ao Brasil, pelo Mato Grosso do Sul, a safra estava excelente. Chuvas regulares e lavouras extremamente bonitas, especialmente entre Ponta Porã e Dourados — região que hoje é dominada pela soja, onde antes havia muita pecuária.
De Campo Grande a Chapadão do Sul, região já consolidada. No Mato Grosso, por onde passamos, as condições também eram ótimas, inclusive com boas chuvas.
O que ficou
Foi uma experiência fantástica: 10.795 quilômetros rodados em 29 dias, entre novembro e dezembro de 2025.
O que mais nos marcou foi a diversidade — de paisagens, culturas e sistemas produtivos — e, principalmente, a capacidade da humanidade de se adaptar aos ambientes mais extremos.
E ficou ainda mais claro que conectividade e organização fazem diferença, mesmo quando estamos longe — é a mesma ideia que sustenta a gestão operacional agrícola. Viajar assim amplia o olhar. E esse olhar volta com a gente para o trabalho, para as decisões e para a forma como enxergamos o campo.



